Todo dia, dois roubos na Avenida Giovanni Gronchi

 

Entre as vítimas, traumas e sensação de insegurança


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Num trecho de menos de um quilômetro da Avenida Giovanni Gronchi, um dos principais corredores de tráfego do Morumbi, na zona sul da capital, foram registrados 111 roubos ou furtos a pedestres ou motoristas nos dois primeiros meses deste ano, média de quase dois casos por dia.

Os crimes na área foram engrossados por um tipo específico de ataque: ladrões quebram, com pedras ou velas de ignição de carros, o vidro do veículo para levar bens portáteis, como celulares e bolsas. As vítimas preferenciais são mulheres. Há relatos de agressões e, em um dos casos, um jovem de 17 anos foi ferido com um tiro.

Policiais civis e militares responsáveis pela região admitem o aumento de crimes num trecho de 900 metros da Giovanni Gronchi, entre as ruas Francisco Tomás de Carvalho e James Alvim, a menos de três quilômetros do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista.

Em janeiro, foram 53 roubos ou furtos nesse trecho. Em fevereiro, 58. Nas ocorrências sem vítimas, alguns delegados registram como furto por entenderem que a violência foi apenas contra o carro.

As vítimas são tanto motoristas como pedestres. Em um dos casos, um cliente do McDonald’s foi abordado no banheiro da lanchonete e teve de entregar relógio e tênis. “De janeiro para cá, vi de 12 a 15 casos. Roubaram clientes do posto, no farol e no ponto de ônibus”, disse um frentista do Posto Via Brasil, próximo à esquina da Rua São Pedro Fourier.

Segundo a polícia, foi intensificado o policiamento e mapeados locais e cruzamentos mais visados, o que já teria reduzido o número de crimes neste mês.

O perfil traçado com base no relato das vítimas mostra que os criminosos raramente estão armados, são, na maioria, menores de idade, agem em grupo, a pé e moram nas favelas que margeiam a avenida, sobretudo em Paraisópolis, segunda maior da cidade, com 80 mil habitantes.

“Essa é uma área crítica, onde tem mais congestionamento e a incidência criminal é maior. Há muitas entradas para Paraisópolis e para a (Favela do Jardim) Colombo. Iniciamos um trabalho mais específico de investigação. Os ladrões são daqui, não vêm de fora”, afirma a delegada titular do 89º DP (Portal do Morumbi), Silvana Françolin, que diz trabalhar na área junto com o Grupo de Operações Especiais (GOE), grupo de elite da Polícia Civil.

Trânsito

Segundo a CET, o tráfego em horário de pico na Giovanni Gronchi, avenida de mão dupla, é de 3,5 mil veículos por hora. Os engarrafamentos surgem com frequência porque a via é estreita, com poucas faixas. “O motorista fica de 10 a 15 minutos parado, existem poucas vias de acesso e ruas de ladeira que vão dar na favela. Então, fica muito fácil (a fuga)”, diz a delegada titular do 89º DP.

Neste mês, a PM patrulha o trecho com dez homens, em média, deslocando carros de outras áreas para o local. Em 2010, foram presas 66 pessoas, 31 em janeiro e 35 em fevereiro. Desse grupo, 16 eram menores. “É esclarecendo os crimes que a gente resolve essa situação porque a pessoa tem que ter a certeza que vai ser punida. A punição é a prisão e isso a gente tem feito”, diz a delegada. “Tem uma dificuldade a mais nesse tipo de crime: a impossibilidade de as vítimas reconhecerem os criminosos depois, devido à rapidez da ocorrência e ao susto do momento. Sem o reconhecimento, fica mais difícil.”

A onda de crimes na via ocorre no mesmo trecho em que, um ano atrás, um grupo de moradores de Paraisópolis iniciou um protesto violento que bloqueou a avenida, o que causou um confronto com a Polícia Militar. Depois disso, a PM detonou a Operação Saturação e ocupou a favela por três meses, reduzindo na época os índices de criminalidade. “Essas comunidades carentes são arredias com a questão da segurança porque tinham o crime presente. A gente está fazendo prisões e, por outro lado, uma aproximação com a comunidade. É um trabalho a longo prazo”, diz o capitão da PM Edinaldo Soares Alexandre, responsável pela área.


REGISTROS
58
CASOS DE ROUBO
contra motoristas ou pedestres ocorreram em fevereiro num trecho de 900 metros da avenida

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Entre as vítimas, traumas e sensação de insegurança

 

Desde 22 de fevereiro, quando foi assaltada no final de uma tarde chuvosa, a corretora A. M.P., 34 anos, tem que se esforçar para não perder o controle quando para em um semáforo. Foram embora os hematomas no braço e na perna direita, causados pelos murros do ladrão que quebrou o vidro e colocou meio corpo dentro do carro, mas seguem as lembranças que a deixam insegura ao volante.

“Estou um pouco mais calma e não choro mais quando conto. Mas ainda fico tremendo e nervosa quando estou dirigindo”, diz. “Não vou a um psicólogo, espero que o tempo resolva. Mas vem um ambulante para vender alguma coisa e não consigo me controlar, fico em pânico.”

A corretora, que mora no Morumbi e precisa do carro para trabalhar, seguiu a orientação de um policial para aplacar o trauma e, nas últimas semanas, passou a andar com a “bolsa do ladrão”, com objetos que não usa mais dentro. No roubo, levaram a bolsa nova, com celular, óculos de sol, brincos, pulseira... “A bolsa do ladrão, por incrível que pareça, até dá mais segurança. Tive que fazer, não teve jeito.” Na hora do crime, cometido por dois ladrões, a corretora passou a ser xingada e agredida depois que a bolsa foi encontrada debaixo do banco traseiro, escondida.

A professora de ginástica Cristiane Almeida, 47 anos, foi roubada ao meio-dia de 24 de fevereiro: “Ouvi o barulho do vidro quebrar e o berro ‘bolsa, sua bolsa’. O cara pegou e não vi nada. Levei o susto e arranquei com o carro na contramão, de cabeça baixa. Sei que chutaram minha porta porque vi depois”, disse.

Cláudia Palhiano, 36 anos, professora de ginástica olímpica, foi assaltada às 17h de 1º de fevereiro. Enquanto um ladrão levava sua bolsa com R$ 70, cheque e material de trabalho, outros atacavam dois carros próximos. Por impulso, ela reagiu: segurou o fone do celular para impedir que o criminoso levasse. “Fiquei pensando na agenda do celular, que preciso para trabalhar”, conta a professora, que não registrou a ocorrência na delegacia.

 

Moradores pedem mudanças para evitar os crimes

Os moradores do Morumbi sugeriram duas medidas para diminuir roubos e furtos na avenida: fechar o escadão que liga a via à Favela de Paraisópolis e mudar o sentido da Rua Francisco Tomás de Carvalho, conhecida no bairro como “ladeirão”.
“Pedimos à CET a inversão da mão. Isso eliminaria o congestionamento pela espera do semáforo dos carros que sobem a ladeira. E o fechamento do escadão dificultaria para os ladrões. Lá é uma das rotas de fuga”, diz Celso Cavallini, presidente do conselho comunitário de segurança (Conseg) do Portal do Morumbi.
O pedido para que o trânsito da Rua Francisco Tomás de Carvalho, ligação da Giovanni Gronchi para Marginal Pinheiros, flua em sentido único também foi formalizado pelo comando da PM na região, mas a CET disse que essa sugestão é inviável. O fechamento do escadão, inaugurado em 2008, não é cogitado pela Prefeitura. A Secretaria Municipal de Habitação diz que a escadaria é uma demanda da comunidade e se trata de uma viela oficial, que já existia no loteamento de 1921.

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'Colocamos 1 PM a cada 100 metros'

PINGUE-PONGUE
EDINALDO SOARES
CAPITÃO DA POLÍCIA MILITAR



O policial comanda a 5ª Companhia do 16º Batalhão, responsável pela área mais visada da avenida.

Como a PM está agindo no local?

Temos colocado, dependendo do horário, um policial a cada 100 metros. Se não for assim, a molecadinha, de 15 ou 16 anos, vem de Paraisópolis e rouba quebrando vidro, com arma inclusive. Aumentou o roubo ali, de repente. Sem explicação. O ano passado foi atípico. Em virtude da manifestação na Giovanni Gronchi, fizemos uma Operação Saturação. Então, você não pode fazer um comparativo dos índices com 2009. Houve um aumento, mas nada descontrolado. Fizemos muitas prisões neste ano.

Como é o trabalho da PM na favela?

A gente tenta aproximar a polícia da comunidade. Tem viatura lá dentro, fazendo policiamento comunitário. É um trabalho não só de ordem policial, de ordem social também. Mexo com trânsito lá, faço reunião com comerciante, com as igrejas, falo com as lideranças. É para verem que a presença da polícia é importante também.

Por que a onda de crimes um ano depois da PM ocupar a favela?

Na época, não estava aqui (na 5ª Cia.) e não acompanhei a operação. Hoje, faço o contato corpo a corpo com a comunidade. Comunidades carentes são arredias com a questão da segurança porque tinha o crime presente. A gente está fazendo prisões e uma aproximação com a comunidade. É um trabalho a longo prazo. Se Deus quiser, vamos vencer essa guerra.

 


Fonte : - FÁBIO MAZZITELLI, [email protected]